GARRAS CRUÉIS DA VIOLÊNCIA URBANA

 

                                                                             JORNAL CORREIO DA BAHIA
PÁGINA AQUI SALVADOR
                                                                                                                                                                                                   Segunda -feira 2/3/2008
 
Jovens negros são as vítimas preferenciais de grupos de extermínio
Faixa etária entre 15 e 29 anos, baixa escolaridade e vida na periferia
completam o perfil
 
Pablo Reis
Negro, morador da periferia, desempregado, com escolaridade até o
ensino fundamental, entre 15 e 29 anos, com facilidade para reproduzir
gírias e geralmente alguma tatuagem no corpo: marcado para morrer. O
perfil de vítimas de grupos de extermínio na Bahia coloca jovens
negros de famílias de baixa renda, residentes em bairros populares,
como alvos preferenciais de justiceiros, que incorporam o papel de
polícia, juiz, júri e carrasco.

Os levantamentos feitos por entidades de defesa dos direitos humanos e
especialistas em segurança pública desenham a quase totalidade dos
mortos em ações de esquadrões da morte com os pincéis da
discriminação racial e social.

O Fórum Comunitário de Combate à Violência, entidade que reúne
ONGs, associações de moradores, representantes da polícia e
pesquisadores acadêmicos, apresenta números alarmantes sobre a
disparidade racial nas execuções. Os únicos dados disponíveis são
de 2004, com base nos registros do Instituto Médico Legal Nina
Rodrigues, mas o quadro deve permanecer inalterado. Dos 706 mortos em
homicídios com idades entre 15 e 29 anos, 699 eram negros e sete
brancos. As percentagens em relação ao número de cem mil de cada
etnia é de 50,1 para os negros e 1,7 para os brancos. A aritmética do
terror coloca 30 vezes mais chances de um jovem negro ser vítima de um
grupo de extermínio do que um branco nas mesmas condições.

Ser portador dessas características é, para o sociólogo e pesquisador
da violência urbana Antônio Mateus de Carvalho Soares, como ostentar
uma ?marca de Caim?, uma referência ao personagem bíblico
sinalizado com o estigma de um grande malfeitor. Também estes jovens,
na visão dos justiceiros, estão maculados pelo estereótipo de um
delinqüente em potencial. ?Os matadores fazem uma radiografia: se é
preto, pobre, tem trejeitos, cabelo pintado, fala gíria, ou é ou vai
ser marginal. A solução deles é eliminar?, analisa Carvalho
Soares, refletindo sobre a lógica dos grupos.

Vítima – Ao preencher algumas características desse estereótipo, o
adolescente deixa de ser um cidadão para se tornar uma espécie de
alvo preferencial. Em 7 de fevereiro de 2003, Nailton Manoel da
Conceição, um negro então com 17 anos, a três dias de completar um
ano trabalhando em uma lanchonete da Pituba, foi assassinado com tiros
de pistola e metralhadora por policiais que depois justificaram terem
?confundido a vítima com um marginal?.
Ele estava deitado no quarto, na casa do bairro de Pero Vaz, quando foi
surpreendido por agentes que invadiram atirando, numa ação descrita
como a caça a um bandido perigoso da região. Dois policiais dos
quatro participantes tiveram as exonerações publicadas no Diário
Oficial do Estado em 3 de fevereiro de 2006, depois de um inquérito
que mostrou a sucessão de erros e a forma precipitada como atiraram
apenas pela presunção de culpa baseada no tipo físico. Eles podem ir
a júri popular até o meio deste ano.
?Quem mora em periferia sempre sofre mais. Se fosse um menino branco
da Pituba ou da Graça, eles jamais fariam isso?, lamenta o irmão
mais velho de Nailton, Nilton Esperança Conceição, um pouco
envergonhado pelas lágrimas por relembrar o episódio. ?Consegui
provar que meu irmão não tinha vínculo com a malandragem, mas isso
não vai trazê-lo de volta?.

***
Alvos fáceis de matadores
Na mira dos ?matadores de aluguel?, jamais estão os líderes de
quadrilha, acusados de grandes crimes, chefes de bocas de fumo,
assaltantes perigosos. As armas são apontadas quase sempre para corpos
de primários, autores de furtos ou simplesmente candidatos a tal, de
acordo com a escala de projeção de criminalidade elaborada pelos
exterminadores.

Terminam virando reforço de estatística nomes como Ricardo Matos dos
Santos, 21 anos, Robson de Souza Pinho, 19 anos, Clodoaldo Souza, 22
anos, Alexandre Macedo Fraga, 17 anos. Os corpos alvejados durante
ações noturnas passam a estampar as páginas de jornais em uma
ilustração da barbárie.

Os mortos sem sepultura, cadáveres exibidos na comunidade e nas
publicações, funcionam pela lógica do exemplo. ?Corpos expostos,
simbolicamente sem sepultura, operam como uma advertência de
comerciantes e exterminadores. São exemplos extremos do destino que
poderão vir a ter outros jovens que fizerem carreira de reincidência
no crime?, explica o livro Sociabilidade e violência, coordenado
pelo sociólogo Gey Espinheira, que faz um balanço da violência no
subúrbio de Salvador.

?Esses grupos elegem um alvo e partem para o que consideram assepsia
social, ou seja, tirar de ação o que eles consideram como um
possível delinqüente de circulação?, explica a promotora pública
Ana Rita Cerqueira Nascimento, que integra a equipe do Ministério
Público responsável pela atuação contra a criminalidade organizada.
?São pessoas que nem precisam ser remuneradas, às vezes agem por
convicção de estar fazendo o bem?. A promotora atuava na comarca de
Santo Antônio de Jesus quando denunciou cinco policiais militares por
integrar um grupo de extermínio na região. Dois deles foram
condenados à prisão, mas terminaram soltos por habeas-corpus. O caso
teve repercussão há cinco anos, principalmente por causa da visita da
relatora da Organização das Nações Unidas para execuções
sumárias, Asma Jahangir.

Algumas entidades calculam em mais de 80 grupos de extermínio em ação
no estado. No ano passado, o então delegado-chefe da Secretaria de
Segurança Pública da Bahia, João Laranjeira, avisou que tinham sido
identificadas oito agremiações de matadores de aluguel. Nenhuma foi
desarticulada.

***
?Antes eles do que um pai de família?
Uma voz compatível com a de um homem entre 30 e 45 anos, respostas ora
graves, ora sarcásticas, e a certeza de que ele está fazendo um bem
para a sociedade. Durante pouco mais de dez minutos, um homem que
assumiu a condição de integrante de um grupo de extermínio aceitou
falar com a reportagem do Correio da Bahia, por telefone, depois de
contatos com interlocutores em comum. Jack ? como pediu para ser
chamado ? ligou para o celular do repórter de um número
identificado como ?restrito?. Ele disse que trabalha como
segurança de um mercadinho de bairro e que ?já derrubou quatro
vagabundos?, em três anos. Os principais trechos da conversa estão
a seguir:

CORREIO DA BAHIA ? O senhor faz parte de grupo de extermínio?
Jack ? Junto com alguns colegas, eu já ?derrubei uns vagabundos?
que faziam arruaça no bairro.

CB ? Que tipo de arruaça?
Jack ? Roubos, avião, até tentativa de estupro.

CB ? Qual o perfil dos integrantes do grupo?
Jack ? É misto. Tem policial e também gente comum. Um já foi
polícia e agora trabalha como segurança. Outros dois só faziam
acompanhar, não são mizeravão.

CB ? Vocês sempre agem em quatro?
Jack ? Às vezes, depende do lugar, da bocada, da baixada. Se for uma
boca quente, tem que ir quatro ou cinco. Se for um lugar mais
tranqüilo, até dois dão conta do trabalho. Porque já tem alguém na
área que indica o local certo de encontrar o elemento. Aí só precisa
colocar o brucutu e descer.

CB ? O senhor ganha dinheiro com isso?
Jack ? Não. Eu sou contra ganhar dinheiro com isso. Acho que fazer
justiça com as próprias mãos não combina com ser remunerado por
isso. Somos pessoas de bem, sem maldade e sem perversidade. A gente faz
o que a polícia não pode fazer pela lei. Somos pessoas que querem
deixar um mundo melhor para nossos filhos.

CB ? Quais foram suas vítimas?
Jack ? Uns vagabundos que queriam engrossar o pescoço na área. Um
já tinha arrombado duas casas e outro ?fez? uma padaria e uma
farmácia. São pessoas que já têm passagem pela polícia e que já
entram na delegacia dando risada, porque sabem que vão ser soltos.

CB ? O senhor acha correto fazer justiça com as próprias mãos?
Jack ? Se alguém me faz puxar o ferro, eu tenho que usar. Se eu der
um mole, minha casa cai. Eu poderia matar alguém para me proteger ou
para proteger outra pessoa. Pergunte lá na rua sobre os caras que
caíram e todo mundo vai dizer que já foi tarde, tudo sacizeiro. Antes
eles do que um pai de família, você não acha?

CB ? O que o senhor acha da violência?
Jack ? A violência é o pior problema de hoje. A violência e a
corrupção na política.

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