Algumas Personalidades do Bairro de Sete de Abril

 

Citação

Algumas Personalidades do Bairro de Sete de Abril

Formada por antigos moradores que fazem parte da evolução do Conjuto residencial  Sete de Abril Fundado em de 19 e da Memória da Estrada velha.

 

 

FONTE DE PESQUISA: http://soteropolitanosdaestradavelha.wordpress.com/2008/06/17/o-talisma-do-arrocha/

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Osvaldo Sena

 

Já foi o Professor no Bairro e Esteve também afrente do Conselho de Moradores. 

 

Eu nasci em 22 de janeiro de 1939. Tenho orgulho de ter nascido na heróica Cachoeira. Vim para aqui em 1945. Era pequenininho e estudei em alguns colégios bons, alcancei bons professores. Naquela época eram rígidos, como o Instituto Normal da Bahia. E eu, pobre, enfrentei algumas dificuldades. Fui criado também com meus padrinhos. Depois eles vieram a falecer e tive alguns prejuízos materiais, mas fui bem tratado pela minha família. Eu, como pobre, trabalhei, fazia serviços diversos na rua. Trabalhei até de ajudante de pedreiro. Fazia tudo e depois me encontrei com esse Senhor Edmundo Palmeirão e comecei a trabalhar com ele pegando mendigos na rua. Trabalhava também com criança, pegando idosos, o que me incentivou para que eu criasse a Associação Baiana de Defesa dos Direitos dos Idosos. Então, a partir daí, quando foi reaberto o São Geraldo, em 1960, eu entrei no São Geraldo como instrutor.
Também fiz o meu curso de Magistério. Eu preparava o pessoal para o ginásio. Depois eu trabalhei na prefeitura, no Serviço de Mendicância. Ganhava uma gratificação, às vezes o dinheiro atrasava, já sofri muito. Trabalhei honestamente e trabalhei inclusive no comércio, por uns tempos, na empresa Paes Mendonça. Daí voltei para a gestão pública. Fui para a Escola Eraldo Tinoco, já em Sete de Abril. No Eraldo Tinoco, foram 23 anos como professor de várias gerações, de Estudos Sociais. Hoje eu tenho os amigos, o pessoal que me vê, fala comigo. Quer dizer: pai, mãe, filho e até mesmo netos foram meus alunos. Eu aprendi a complexidade da vida pública trabalhando no colégio São Geraldo e também aqui nas associações de moradores. Eu fui presidente do Conselho quatro vezes. Fundamos também essa associação.

O que me motivou muito a criar a Associação Baiana de Defesa dos Direitos dos Idosos foi o que eu assistia – quando eu trabalhava com idosos, com o Seu Edmundo -, o que eu via que se passava com esses idosos. Eram explorados por parentes, que muitas vezes recebiam o dinheiro deles, de aposentadoria e outras coisas, e internavam no Abrigo Dom Pedro II, no albergue das Sete Portas, no de Brotas. Às vezes, sem as mínimas condições de tratamento médico para o idoso. Uma vez eu fui agredido. Eu tenho a marca aqui de uma pedrada que eu tomei de um marginal, quando eu ia defender o idoso. O marginal explorando o idoso, tomando o dinheiro do idoso. Eu defendi e quase morria.

Eu morava no São Geraldo e, depois, quando eu saí do São Geraldo, sempre continuei morando em Sete de Abril. Eu aprendi a gostar do bairro. Inclusive eu tive problemas familiares, fui aconselhado a me mudar de Sete de Abril, mas eu disse: “Não, eu fico em Sete de Abril mesmo”. E fiquei até hoje e não estou arrependido não. Eu não sou fundador daqui sozinho. Comigo estão vários alunos do São Geraldo, muitos dos quais ainda moram aqui e também são fundadores, porque nós mudamos para aqui muito antes dos próprios moradores. Os moradores do conjunto são fundadores do conjunto e eu sou fundador de todo um bairro, porque eu vim muito antes da criação do bairro e da fundação do núcleo também. Na parte política, nós conseguimos ser o primeiro candidato a vereador do bairro. Eu tive uma boa votação, em 1970, porém não consegui ser eleito, mesmo assim eu ainda sou o mais votado aqui da região.
CASAS PARA POMBOS

Aqui era a Fazenda Mar Vila. Depois passou para Sete de Abril, por causa da chegada do prefeito. O bairro Sete de Abril é em homenagem à vinda do primeiro prefeito eleito de Salvador: Hélio Ferreira Machado. A partir daí, foi criado o nome Fazenda Sete de Abril e os seus secretários resolveram colocar o nome Escola Sete de Abril na escola que ele pediu que fosse implantada ali no velho casarão, onde hoje é o Marotinho e tem a Escola Municipal Novo Marotinho. A partir daí, juntando com o pessoal da Fazenda Buraco do Tatu, formaram o Loteamento São José, foi formado o bairro de Sete de Abril.

O núcleo habitacional foi criado com a construção de 500 casas populares. Na época da construção, o presidente Castelo Branco, chegando aqui, sobrevoando de helicóptero, disse que as casas eram para pombos, por achá-las pequenas. Era quase um embrião, dois quartos pequenos de 2 metros. Em muitos não cabia nem uma cama de casal.

As irmãs de caridade de lá dos Alagados não quiseram vir, então foram inscritos funcionários públicos, a maioria militares, civis, bombeiros e outros trabalhadores, inclusive até do mercado informal, e formaram o núcleo. Depois de dois anos de construção, foi inaugurado, em 2 de outubro de 1967, juntando com moradores de lá do antigo Loteamento São José. Então foi formado o bairro Sete de Abril. Começou a ter a vida social, jurídica, com a criação do Conselho de Moradores e realização da primeira missa. Com a fundação do núcleo, já não se falou mais em Fazenda Sete de Abril, agora: bairro Sete de Abril.

Para morar aqui era uma mensalidade baixa, na época. Era R$27 e pouco. Todos podiam pagar e se inscreviam lá na Cohab. Antigamente era no Edifício Alta Bahia, ali no Relógio de São Pedro. Se inscrevia e depois havia um sorteio. Mas veio todo mundo de vez. Foram apenas 500 casas. A criação do bairro foi decorrente da criação do núcleo habitacional de Sete de Abril, porque o loteamento tinha poucas pessoas e não existia bairro. Então, depois da criação do núcleo, foi formado o bairro, com vida própria, transporte, escolas, tudo, enfim.

A questão do município de Lauro de Freitas se resolveu com o povo dando o endereço correto, de Salvador. O Conselho de Moradores interferiu também e Lauro de Freitas ficou de fora mesmo. Através de gestões do Conselho de Moradores, reuniões sucessivas, então foi confirmado o bairro de Sete de Abril como pertencente à Salvador.

 

INFRA-ESTRUTURA

Quando entregaram o núcleo, já era todo pavimentado. Mas da entrada do bairro aqui para o fim de linha não tinha asfalto, que só veio em 1970. O prefeito Clériston Andrade prometeu o Natal à gente e cumpriu: asfaltou Sete de Abril. Tudo aqui era no núcleo. Começou com tudo: a energia elétrica e a água, que era fornecida através de uma barragem construída lá em baixo. A água vinha para aqui, para essa caixa d’água, que é um marco histórico do bairro.

No loteamento não tinha água, não tinha energia elétrica. Antigamente a gente pegava água no rio, porque não tinha água encanada. Pegava do rio ou então comprava água do jegue. O barril, diariamente, era quem fornecia a água. Os rios eram logo aqui, no loteamento Três de Julho, próximo ao Cambonas. Tinha um rio que a gente tomava banho também. Tinha uma bica. Inclusive vinha gente de fora, no fim de semana, para tomar banho ali no rio. Como tem aquele também lá próximo do Loteamento Alternativo, onde antigamente os ladrões tomavam banho. Ali ainda tem uma água límpida, boa mesmo, corre direto, à vontade. Um local aprazível que serve muito à comunidade que vem de fora e daqui mesmo.

Hoje é preciso renovar o sistema de esgotamento sanitário, precisa mudar, fazer um serviço de restauração de todo o sistema, que está obsoleto, tem mais de 40 anos. Nós temos promessa para o princípio de 2008, já que nós pertencemos à Bacia de Cambonas e não pertencemos ao Bahia Azul. Isso foi o que me respondeu o pessoal lá da Embasa. Então, em 2008, nós teremos a reforma do sistema de esgotamento sanitário, bem como a pavimentação do primeiro núcleo e também das ruas do sofrido loteamento, cheio de ladeiras. É necessária uma grande reforma na pavimentação, com a implantação de escadarias.
COMÉRCIO

O comércio veio crescendo a partir da década de 70. Quando chegou a água encanada, a energia elétrica, foi desenvolvendo e até hoje está aí. Hoje, a parte do loteamento é maior do que o núcleo e é onde se ergue o maior comércio. Antigamente tinha poucas barracas, para vender bebidas, e depois foram criando os pequenos mercadinhos. A cachacinha sempre tinha. Domingão mesmo vendia cachacinha. Lá, Isaías. Aqui teve Sergipe Bombeiro e teve briga, uma polêmica danada, porque Sergipe Bombeiro queria vender e a Urbis proibia, mas depois foi tudo liberado. Depois veio a barraca do Dinho, que é antigo, veio o Val com o bar. Ali, o Ceará, que tinha uma barraca onde hoje tem aquele mercadinho.

Mas o loteamento foi crescendo mais. Veio então esse de Joaquim: Irmão Matos. Antigamente ali era Comal, mas houve um acerto lá com o pessoal da Comal, onde Joaquim trabalhava. Eu sei que depois Joaquim montou o mercadinho dele ali, Mercadinho Irmão Matos, e foi crescendo. Hoje tem tudo lá no loteamento, casa lotérica, tudo, é o maior comércio. A maioria da população e o pessoal de baixa renda – o pessoal do mercado informal -, todos estão lá no loteamento. Aqui é que ainda moram muitos militares, mas muitos venderam e se mudaram.
EDUCAÇÃO

As principais escolas são de 68: a primária, Afrânio Peixoto. Em 81, a escola de ginásio Eraldo Tinoco, só o primeiro grau. E, em 2002, foi implantado o segundo grau. Eu fui professor dali por 23 anos. Foi uma luta para conseguirmos esse segundo grau para Sete de Abril, porque o bairro ainda é pequeno. Mas, junto ao governador, nós lutamos muito. A primeira turma de formandos do segundo grau foi em 2003, pertinho aí, agora.
ACESSO

Aqui era só mato. Ali mesmo onde está o posto policial, era mato onde se jogava lixo. A praça, toda bonitinha, é de 1999. Era simples, depois foi que fizeram a criação do jardim e, agora, este ano, foi que teve a ampliação, colocando o parque infantil e um melhor visual na praça.

Hoje nós sentimos a necessidade de abertura de vias para interligar com Castelo Branco, Jardim Esperança, a Via Regional. Precisamos de mais apoio, para que o bairro não seja um beco sem saída, uma viela. Precisamos de acesso, para criar novas linhas de ônibus ligando Sete de Abril para Cajazeiras e tal. Uma kombi faria a travessia de Sete de Abril para o Novo Marotinho. A construção de uma passarela. Ainda precisamos de muitas coisas, mas já conquistamos, né?

O pessoal reclama de linhas diretas para Barroquinha ou para Campo Grande, mas sempre respondem que não há condição. Quando a comunidade pede uma linha, eles vêm fazer a vistoria e verificar. E, na realidade, o bairro aqui é pequeno, então é um beco ainda sem saída. Agora, depois da construção de vias de acesso para os bairros prontos, como a Via Regional e Castelo Branco, aí há condição de melhoria do sistema viário. As linhas aqui são pelo sistema de transbordo, na Estação Pirajá.
SEGURANÇA

Aqui nós vivemos em paz, não existem certas adversidades. Porque toda criminalidade vem das brigas, dos confrontos de equipes de futebol, outras equipes. Traficantes? São poucos, são pouquíssimos, não temos traficantes famosos aqui. E nós temos também aqui a polícia, que nos dá muita tranquilidade. A Companhia foi inaugurada agora, em 2002.
FESTAS

A vinda da padroeira começou logo em 1968: Nossa Senhora do Carmo. Ela veio aqui em uma romaria, juntamente com a imagem do São Geraldo. O padre na época era o diácono Áureo, juntamente com Seu Edmundo, que também era religioso. Ele era tenor. Ele cantava na orquestra da Basílica do Senhor do Bonfim. Então juntou-se com Áureo e trouxeram aqui em romaria as imagens de São Geraldo e Nossa Senhora do Carmo. No entanto, ao invés do padroeiro ser São Geraldo, eu sei que acertaram que a padroeira mesmo é Nossa Senhora do Carmo, que abrange toda essa região.

Nós organizamos festas, os desfiles de datas notáveis, Dia das Crianças, o Natal, São João, formamos quadrilhas. Há uns 15 anos, em 92, surgiram as Viúvas de São Pedro. É uma festa tradicional. Tem um grupo que organiza e vem muita gente de fora. Tem apoio de políticos também. Os meninos é que colocaram esse nome, o “pessoal do licor”, o pessoal aí da bebida. “Viúvas” porque todos saem vestidos de mulher.

A Lavagem de Sete de Abril sempre tem. É de 1976, sempre em setembro. Ela percorre as ruas principais do bairro. Vem pela Seis de Janeiro e volta lá do Cajueiro. Ainda chamado Cajueiro, porque ali tinha um cajueiro.

 

VIZINHANÇA

Uma moradora daqui, Dona Mira, com 16 filhos, ganhou o prêmio da “Mãe do Ano”. Nós tínhamos também um rapaz, Sergipe Bombeiro, que foi o primeiro a tomar a chave da casa, foi o primeiro a habitar aqui no núcleo, ali na casa número 94. Tem uma velhinha chamada Bahia que é uma figura folclórica daqui de Sete de Abril. Ela é até torcedora do Bahia, mora ali no loteamento.

Uma pessoa que tem grandes serviços prestados ao bairro na área educacional é a professora Diola, da Escola Rosa Vermelha. Temos algumas lideranças comunitárias, como o Ranulfo, o Leo, Washington, Baltazar, Bozó, Edilberto, que foi candidato a vereador, temos o Carlinhos Zoião, que hoje é chefe do posto.

O São Geraldo é uma instituição para internato de menores. Surgiu pela primeira vez em 45, depois ressurgiu em 1960. Então ele mudou-se para Sete de Abril em 65 e começou a assistir a todo o desenvolvimento da fazenda. Não era mais fazenda, já estava sendo criado um novo bairro e logo depois foi criado Marotinho, Jardim Esperança. Castelo Branco foi logo após Sete de Abril. Ali era a Pedra Preta. E nós – diretores, funcionários, professores, alunos da São Geraldo – nós assistíamos a tudo isso. Assistíamos à passagem de marginais que eram soltos e passavam correndo por aqui. Muitos às vezes até caíam de qualquer jeito, despidos. Os meninos davam roupa, aquela coisa toda. A Fundação Instituto Geraldo continua prestando grandes serviços, com grandes cursos como o Agente Jovem, ProJovem e outros. São Geraldo que tem uma vasta área e que continua prestando serviços ao nosso bairro como a entidade pioneira de Sete de Abril.

Terreiros de candomblé na vizinhança temos o famoso de Mãe Lindaura, ali na Rua Seis de Janeiro. É famoso porque é desde a origem do bairro e vem muitas pessoas de fora. Antônio Carlos Magalhães, Beijoca, o pai de Beijoca também freqüentava muito o terreiro de Mãe Lindaura.

 

SAÚDE

Em 1974 foi inaugurado o posto de Saúde. O pessoal reclama do atendimento 24h, porém a resposta para nós é que já tem aquela unidade de São Marcos e que não há condições de ser implantado 24h aqui na unidade de Sete de Abril por causa da unidade de São Marcos.

 

ESPORTE

Inauguramos o nosso clube de futebol, o Bahia de Sete de Abril, em 1968, logo quando surgiu o bairro. Nós tínhamos campeonatos no nosso campo, onde hoje é o Cambonas. Já tivemos grandes clubes, como o Escolinha, o Carmelitano. Na área esportiva, tivemos a conquista do primeiro campeonato de futebol promovido pela Urbis, em 1975.

Nós perdemos um campo de futebol onde hoje está o Conjunto Cambonas, mas ganhamos um outro no loteamento Três de Julho. Lá temos até refletores. E temos um outro, pequeno, na Treze de Maio, onde tem a Liga Esportiva Sete de Abril, bem organizada e que atrai aficionados de toda a região. No esporte temos o Miranda, o Zelinho. Gilmar goleiro também pertenceu aqui ao Carmelitano, o Edílson, chamado Pateta, e outros que saíram daqui de Sete de Abril e conseguiram engajamento em clubes profissionais. Temos lideranças como Cabeça, o Barão e outros. Quadra, nós só temos uma, que é administrada pelo Conselho de Moradores, onde nós realizamos torneios diversos. Temos o pessoal de capoeira, o Mestre Cabeça, mestre William e outros, os remanescentes da capoeira do saudoso Mestre Bêda. Nós temos muito aficcionados da capoeira, que está bem desenvolvida aqui.

 

CURIOSIDADES

Logo no início, nós tínhamos aqui um serviço de auto-falante. Seu Armínio era um ex-guarda civil, uma pessoa muito dedicada, que implantou aqui o serviço de auto-falante. Tinha um rapaz, Danilo, que ainda é vivo, que trabalhava também. Era o locutor. Seu Armínio tinha um filho chamado Minuca e ele tinha muito cuidado com esse filho. Um dia, Seu Armínio se esqueceu de fechar a voz para a rua e deixou aberto para a rua o aparelho. Então ele chegou e gritou de lá: “Minuca, vem tomar banho, Minuca”. Eu estava aqui, foi uma gozação. Depois eu fui correndo avisar.

Tinha também a jega Mimosa, que carregava água. Seu Reginaldo (ele hoje é maestro Reginaldo) tomava conta da jega. Só que ele ficava batendo na jega, então uma vez Seu Edmundo reclamou: “Ô, Reginaldo, a jega traz a água, a jega cansada e você fica batendo na jega. Não bata mais na jega não. Eu vou lhe dá só uns dois bolos, porque não quero que você bata na jega”.

O nome Rua do Chafariz, ali em frente à Rua 6 de janeiro, é porque ali existia um chafariz que o João fez. O povo chamava “João Chafariz”. No loteamento não tinha água, quem abastecia era o chafariz. Ele tirava água lá debaixo com um motor.
ARTISTAS

Virgínia Rodrigues, ainda garota, eu tive a oportunidade de chamar para um show aqui. Nós fazíamos antigamente um tablado de madeira, um palanquezinho de três metros quadrados. Virgínia Rodrigues morou aqui na quadra B, número 20. Hoje é uma grande cantora de renome, a pérola negra da Bahia. Eu tenho prazer de dizer que ela morou aqui em Sete de Abril. Ela cantava em igrejas e participou com a gente aqui. Conheço muito a senhora mãe, o irmão, familiares dela. Uma pessoa humilde e venceu.

Temos também o maestro Reginaldo, do Pelourinho. Reginaldo era um bom menino, grande músico. Hoje Reginaldo é conhecido ali no Centro Histórico. Foi do Exército, mas ele preferiu ficar com a banda dele. Ele tem uma banda boa e presta serviços para várias instituições.

 

Entrevistado: Osvaldo Sena, nascido em Cachoeira, em 1939
Entrevista realizada em novembro de 2007
 
Irmã Mariana Maria Pereira 
 
Afrente da Fundação São Geraldo.
 

Eu sou Irmã Mariana Maria Pereira. Eu sou Medianeira da Paz, da Congregação das Irmãs Medianeiras. Com 17 anos e 11 meses, eu entrei para a Congregação. Hoje estou com 64 anos. Eu nasci em 10 de setembro de 1943, na fazenda Sítios Novos. Meus pais eram campesinos, eram agricultores, fazendeiros também. Meu pai tinha muito gado. Eu tomava muito leite, comia muito queijo e gostava muito da minha infância, mesmo com muita dificuldade, porque no interior a gente tinha dificuldade… Estudava com dois, três quilômetros de distância. A gente ia andando. Mesmo assim eu consegui terminar o primário e, naquela época, o povo já exigia que quem terminasse o primário desse aula para as outras crianças que não tinham a facilidade de ter aulas nos sítios. Então, eu fui professora primária do primário. Hoje as minhas ex-alunas estão todas formadas em pedagogia, psicologia, são funcionárias públicas.

Nós chegamos aqui em 1987, em Sete de Abril, quando a Congregação das Irmãs Medianeiras assumiu a coordenação da Fundação São Geraldo, juntamente com o padre jesuíta Clodoveo Piazza. Naquela época, aqui quase não tinha residência, somente o núcleo. Depois é que foi se espalhando. Aqui era tipo um sítio. A gente chamava “Sítio São Geraldo”.

Aqui é um abrigo de crianças, adolescentes e jovens. Nós temos casas-lares aqui no conjunto e, lá em cima, está o reforço escolar e as outras atividades. Irmã Isabel veio na frente para assumir a direção da casa e a reforma do São Geraldo, que estava em decadência. Naquela época, quando nós chegamos aqui, foi como se a gente estivesse entrando num sistema prisional. O São Geraldo era muito fechado, estava tudo arrebentado. Mas quando começamos a construir, a reformar, foi justamente quando o povo começou a abrir espaço por aí. O bairro foi crescendo de um lado e do outro e foram se avolumando os bairros. E hoje está aí: onde era mata virgem hoje estão os bairros circunvizinhos. Tudo isso aí eu vi mata. E hoje a gente está vendo até casa adentrando no terreno da Fundação.

 

SEGURANÇA

Antes nós só tínhamos um posto policial. Eram dois policiais, dois agentes da Polícia Civil. Mas também não tinha essa procura excessiva, esse negócio de marginalidade. A gente podia deixar a porta aberta. Era tranquilo. O posto da Polícia Civil, ligado à 10ª, é que dava toda a cobertura. Mas o bairro foi crescendo, foi aumentando e foram aumentando também os problemas. Problemas sociais foram se agravando e diante da situação a gente fez um ofício ao governador. Eu pedi a padre Piazza para pedir ao governador do estado para pedir um policiamento mais ostensivo para Sete de Abril, porque os casos estavam aumentando. Aparecia gente morta, era aquela coisa toda e a gente precisava de segurança por causa das crianças, segurança também por causa da comunidade. E, aquela carta, padre Piazza levou, entregou ao governador. Na hora que ele entregou, o governador mandou logo que um coronel viesse à Fundação. Eles colocaram policiamento mais ostensivo aqui no bairro, foi aí que as coisas foram melhorando. Porque todo bairro da Estrada Velha do Aeroporto era lugar de desova, lugar de muitos crimes.

Primeiro mandaram policiamento ostensivo e depois pensou-se em trazer para cá uma companhia da polícia, porque eles estavam desmembrando os quartéis em companhias. E trouxeram justamente a 50ª. Há uns quatro ou cinco anos atrás a Companhia foi trazida para cá. No início era 5ª. Eles mudaram de Quartel e mudaram também de Companhia. Hoje é 50ª Companhia da Polícia Militar. A 10ª Delegacia, em Pau da Lima, que é responsável pelo policiamento civil, pelas investigações. As apreensões fica mais com a Polícia Militar, porque esta é a polícia ostensiva.

 

FESTAS

A festa é um novenário na Paróquia Nossa Senhora do Carmo. Ela está sediada em Sete de Abril e tem também outros pequenos núcleos que são as comunidades da paróquia: Santo Antônio, Nossa Senhora do Livramento, Nossa Senhora das Graças, Nossa Senhora do Rosário, comunidade de São José Operário, comunidade de São José do Loteamento, São Francisco Xavier. Então são nove comunidades, são nove células da paróquia e Sete de Abril está dentro desse contexto dessas comunidades que são movimentadas pela igreja que tem como pároco padre José Walter e tem a liderança da comunidade. A participação do pessoal é muito boa, significativa. Cada um quer apresentar um pouco a animação da sua comunidade. Vem partilhar com a comunidade mãe, que é a Nossa Senhora do Carmo, as alegrias, tristezas, as lutas, as dificuldades das suas comunidades.

Depois da festa da padroeira vinha a festa profana. Vinha aquele pessoal não sei de onde, daqui das ribeiras, de Pirajá, vinha fazer a festa profana, misturando com a religiosa. Eles ficavam lá e a igreja ficava aqui. Quem vinha para a festa profana, não vinha para a religiosa. Ou a gente rezava ou a gente ficava ligado no som, ficava muito difícil. Eu acho que foi um dos passos que a paróquia deu muito importante foi tirar a festa profana. A paróquia lutou.

E até não foi difícil. Essa festa profana tinha até morte e os jornais falavam que foi na Festa de Nossa Senhora do Carmo. A festa era dia 16, às vezes caía domingo, quarta, segunda, mas sempre se colocava para o domingo. É por isso que tinha a festa profana. Aí a gente disse: “Nós vamos festejar no dia que cair o 16”. E não brigamos com ninguém. (José Celestino de Campos)

Agora eles estão vindo depois. Depois que a festa passa, eles vão chegando, as barracas vão se instalando. Mas não usam mais o nome de Nossa Senhora.

 

SAÚDE

Depois dessa prefeitura a coisa ficou numa situação… Nem Conselho de Saúde funciona. Eu sou membro do Conselho de Saúde, já fui não sei quantas vezes para ver se reativa o Conselho e ninguém quer nada com nada. A gente sabe que, na saúde pública – eu fiz o curso de saúde pelo SUS –, para funcionar bem uma unidade de saúde num bairro, precisa existir o Conselho de Saúde local. Esse Conselho é que vai cobrar as políticas de saúde junto à Secretaria de Saúde do município. Mas isso não está acontecendo, o povo não é respeitado nos seus direitos.

Hoje a procura no posto é muito grande, a demanda é muito grande. O povo vem de toda essa redondeza para ser assistido, porque é um bairro que tem um posto bom, que tem todos os exames, tem convênio com a Ufba para fazer os exames. Então faz todos os tipos de exames de laboratório, radiografia de tórax. Tem cardiologista, tem oftalmologista, mas os principais médicos que a gente precisa – clínico geral – não tem. Só tem um clínico. E esse clínico está aí há mais de 20 anos e é um médico que não gosta de atender as pessoas. Pediatra, só tem um. Quando sai de férias, fica sem.

Só Pau da Lima tem o pronto atendimento, Castelo Branco, Cajazeiras. Para atendimento das nossas crianças, a gente corre aí, mas é uma dificuldade muito grande. A saúde está em decadência, precisa melhorar muito. Tem agentes de saúde, tem o pessoal da dengue. Os agentes de saúde trabalham, estão sempre atentos às necessidades. Eu acho que o problema está é na administração do município, em ver as carências e providenciar os recursos, os meios para atender melhor as pessoas. O posto tem medicamentos, tem duas assistentes sociais, tem nutricionista, uma equipe boa. O posto é grande, é bom, tem atendimento odontológico. É um posto que tem meios de funcionar para valer se o prefeito olhasse as carências da comunidade.

 

ESPORTE

Para idoso não tem mais nada aqui. Quadra de esporte, só tem a da associação de moradores. Agora, aqui na Fundação nós temos alguma coisa que acontece a nível de bairro. Os meninos estão se organizando. Tem o Agnaldo, que está com um grupo grande. Tem um rapaz que vem de fora da comunidade. Tem dois rapazes que são voluntários, que estão trabalhando com a gente e estão se organizando para a prática do esporte. Nós temos aqui capoeira, futsal com as meninas, com os meninos. E estamos criando aí um outro tipo de esporte, taekondo. Tem vôlei. Mas aqui, lá fora não tem.

 

ARTE

Daqui da Fundação nós temos um menino que toca guitarra muito bem e violão. Ele esteve na Escola de Música da Ufba e aprendeu. É Uilton. Hoje ele está trabalhando no Paes Mendonça, mas aos domingos ele sempre vem tocar aqui no coral da igreja. Ele toca bem baixo, violão, guitarra. E tem a turma daqui que toca na igreja. Também são meninos do bairro que tocam bem, que cantam bem, mas nunca foram pra mídia pra se destacar como cantores. Os talentos são descobertos na comunidade, vivenciados na comunidade.

 

PROJETOS

Um projeto que eu estou gostando é uma biblioteca. Lá na nossa igreja, embaixo da loja, tem a biblioteca, mas a moça que é responsável está construindo uma ali, no terreno que a Conder deu a Gilcélia, que é a presidente dessa associação que responde pela biblioteca. Mulher de muita luta, mulher de muita coragem, de muita garra. Ela merece muito apoio.

É lá dentro que vêm os universitários. É lá dentro da biblioteca que estudam, que já foram encaminhados vários jovens para a universidade. E lá dentro tem jovens universitários que vêm ajudá-la e eles estão também na luta pela construção da biblioteca. A biblioteca é comunitária e ela tem uma finalidade que é ajudar na promoção social, no conhecimento, no estudo e na descoberta da cidadania de todos os jovens, crianças, adultos. Quem quiser estudar.

 

Entrevista realizada em novembro de 2007

 

José Celestino de Campos

 

Entrevistado: José Celestino de Campos, nascido em 1932, morador de Sete de Abril, é pedreiro aposentado pela Odebrecht, presidente do Apostolado, do Terço dos Homens e da Pastoral Familiar da igreja do bairro
Entrevista realizada em novembro de 2007

 

A minha adolescência foi dura. Eu sou filho do interior, Mata de São João, mas de fazenda. Sou de 14 de julho de 1932. Meu pai era pobre, carpinteiro, lutava muito. A gente trabalhava na roça, com gado. Quando foi em 1950, eu vim morar em Itapuã, com 17 anos. Fui trabalhar na fazenda de Braz Bartilotti. Aí aprendi a dirigir trator e fui tratorista quatro anos. Depois a gente plantou toda a fazenda de coqueiro. Aí ele vendeu o trator e eu fui trabalhar em construção. Aprendi a profissão de pedreiro.

Aqui no bairro de Sete de Abril eu sou amigo de todo mundo. Todo mundo me conhece, me respeita e eu respeito todo mundo. A minha ligação aqui é essa: quando precisa de mim, eu dou uma ajuda. Sete de Abril é uma maravilha! De acordo com muitos bairros que eu vejo por aí, eu estou no céu. Saí do purgatório e vim para o céu. Naquele tempo que a gente veio para aqui, era difícil, mas agora a gente tem transporte para tudo quanto é lugar. Então eu não posso achar ruim.

Eu não tinha casa. Morava de aluguel lá na Caixa D’água. Então meu padrinho disse: “Zé, tem uma inscrição em Sete de Abril para umas casas”. Eu disse: “Pronto, pode pegar uma inscrição pra mim”. Aí me inscrevi e fui escolhido para a quadra G. Então, eu acho que para mim e para todos que vieram para Sete de Abril, foi uma maravilha. Porque a maioria desse pessoal morava de aluguel. Eu não tenho um amigo aqui que me disse: “Eu tinha uma casa em tal lugar”. Morava de aluguel e às vezes num buraco lá pela cidade, IAPI, Pau Miúdo, Cidade Nova. Eu morava ali na Caixa D’Água, atrás da Escola Parque, mas não era minha casa.

Em 1968, quando eu vim para aqui, já fui trabalhar no Conselho de Moradores, para trabalhar em prol do bairro. Esse colégio foi pedido nosso, o de lá de baixo, Eraldo Tinoco, posto médico… Tudo a gente tomou chá de cadeira pedindo. Eu estava no meio. Fui presidente do Conselho. A gente tem que ter um pouco de disponibilidade e vontade. Para a gente trabalhar com os poderes públicos, a gente tem que ter paciência para pedir. A gente pedia, forçava, fazia igual a viúva, até que conseguia. Quando a gente veio morar aqui, de lá da entrada do cajueiro para o fim de linha era tudo chão. E a gente conseguiu o asfalto.

 

COMEÇO

Antigamente Sete de Abril era uma fazenda e pertencia à Prefeitura. Era um lugar onde se prendia os animais que ficavam à toa na rua. Mas quando teve eles acharam que deveriam construir umas casas aqui, o núcleo habitacional para o pessoal dos Alagados. Tinham pena de ver o pessoal lá dependurado, em cima da água. Mas quando eles trouxeram um responsável de lá, que chegou aqui e viu as casas, aí disseram: “Não vem ninguém para aqui”. Então, naquele tempo, a Cohab – não era Urbis – a Cohab não ia perder o dinheiro. Isso foi em 65. Eu cheguei aqui em 1967, mas as casas foram vendidas em 1965. Passou dois anos para entregar as casas. Consertando as ruas, essas coisas. Aí eles lançaram a inscrição. Sete de Abril foi o primeiro Projeto Habitacional da Urbis e as casas eram divididas em quadras sinalizadas pelas letras do alfabeto. Tinha até a quadra H. Eu moro na G, mas agora é Rua Jesus Bento de Sousa. Partes aqui pertenciam a Lauro de Freitas, depois é que foi desmembrado de Lauro de Freitas para Salvador. Até 1970, mais ou menos.

 

ÁGUA

A água da caixa d’água vinha daqui de baixo, de um riacho. Eles fizeram uma barragem nesse riacho e dessa barragem a bomba jogava a água para a caixa d’água. A água era tratada. A Seção de Água (antes não era Embasa), fez uma seção de tratamento. Tratava a água e daí jogava para essa caixa d’água e distribuía para as casas. Mas só tinha água para a gente, só era do núcleo.

 

ACESSO

A Estrada Velha tinha pouco movimento, porque também tinha poucas pessoas. Agora que está movimentada, porque tem os conjuntos. Agora tem até engarrafamento. O transporte não tem comparação. Antes, Ave Maria! Quando eu vim morar aqui, só tinha dois ônibus e, em um bairro onde tinham 500 casas, cinco pessoas cada casa, dá 2.500 pessoas. Para vir só em dois ônibus era difícil. Agora é que está ótimo! Se você quer chegar na cidade 8h, sai daqui 7h. Naquele tempo, se a gente quisesse chegar 8h na cidade, tinha que sair 5h30, porque era o tempo que ficava esperando o transporte. Hoje, primeiramente, nós queríamos uma linha de transporte para o Campo Grande, indo pelo Terminal da França, como tem em Colina Azul. É uma linha que nós precisamos ter. Já temos Barra, Pituba, Comércio, Barroquinha via Liberdade – que é Baixa de Sapateiros – e Lapa, que é o que mais tem.

 

SEGURANÇA

Naquele tempo que a gente veio morar aqui, quase não precisava de segurança. Cada qual segurava a sua casa. Inclusive ali perto tinha a Colônia da Pedra Preta, mas eles não incomodava a gente. A gente dormia até com a porta aberta. Depois da valorização do bairro, vai crescendo, aí é que precisa de segurança.

 

FESTAS

De 07 a 16 de julho comemora-se a festa de Nossa Senhora do Carmo. É a padroeira do bairro. O dia dela é 16 de julho. No novenário, a gente convida as comunidades – são nove – e cada noite é de uma comunidade, que anima. A nossa comunidade fica com a procissão e o dia da festa. E damos convite para o bairro. A gente faz um programa e coloca ali: tal quadra com tal rua, para fazer parte da noite. A primeira festa aqui foi em 1969, quando foi construída a capelinha. A gente trouxe Nossa Senhora do Carmo, mas ela ficava aqui, no São Geraldo. A gente fazia tudo aqui, celebrava missa, rezava as nossas orações, terço, ofício. Então a gente construiu a capelinha.

 

VIZINHANÇA

Os moradores eram policiais, bombeiros, funcionários públicos. Naquele tempo tinha 2.500 pessoas, agora tem 27.000. Em minha rua, dos meus vizinhos, não tenho o que dizer. Só alguns que ligam a radiola para a rua toda escutar. Agora eu não sei nas outras ruas…

 

SAÚDE

Quando a gente inaugurou esse posto, ele era bom. Ele é de 68. Aqui é Posto Médico Sete de Abril, da prefeitura. Quando começou, era 24h. Uns três anos depois tirou o 24h e ficou só o dia. Mas era bom, tinha médico clínico, três, quatro médicos, ginecologista, pediatra. Agora, de uns dois anos pra cá, só é um médico clínico. Eu sou idoso, mas não procuro esse posto daí porque eu não quero morrer lá na porta.

 

ARTISTAS

Virgínia Rodrigues morou aqui em Sete de Abril. O irmão dela mora na Quadra B. Sempre vejo ela ali, na casa do irmão. Ela cantava nas igrejas. Aqui na Paróquia, ela tinha um grupo de meninas. Ensaiavam aqui na nossa igreja. Não sei onde foi que Caetano Veloso ouviu, viu que ela dava para cantora e convidou ela.

 

 

Van Costa

 

Compositor, cantor e tecladista, Valdir de Jesus Costa é um dos muitos artistas do bairro de Sete de Abril, onde surgiram nomes como a cantora Virgínia Rodrigues e o percussionista Ivanzinho, entre outros. Nascido em agosto de 1967 e morador de Sete de Abril desde 1969, Van Costa fala em seu depoimento sobre os desafios de sobreviver de música trabalhando em bairros da periferia de Salvador.

Eu resido aqui nessa comunidade há 38 anos. E, nesse tempo, a partir de 14, 15 anos, a gente já vem fazendo um trabalho de voz e violão. Hoje, com essa nova roupagem da música mais avançada, que é a seresta, que é editada agora como arrocha. Eu venho fazendo esse trabalho agora, voz e teclado, e é um trabalho que está sendo até bem aceito nos bairros. Cantor de barzinho, hoje, aqui na área, a gente trabalha muito em cima do público pequeno. E, o público pequeno, a música mais aceita é o arrocha. É esse o trabalho eu venho fazendo, que é a antiga seresta, uma batida mais pegada.

O CD “O Talismã do Arrocha” é um trabalho feito no bairro, pra também divulgar aqui. No próprio bairro, a gente tem condições de fazer um trabalho caseiro. Então, a gente apostou em quê? Fazer um trabalho em computador, dentro de casa, com o teclado, colocando a voz. E o que venho trazer aqui: quatro músicas minhas, minha autoria, pra divulgar o meu trabalho também como compositor. Eu tenho mais ou menos seis meses com esse trabalho gravado, e é o que tá me dando uma divulgação melhor, e levando pra que a gente faça mais show fora, vendendo essa mídia, que é o trabalho do Van Costa: “O Talismã do Arrocha”.

 

Infância

É uma infância até um pouco gostosa de falar, porque eu trabalhei muito tempo com a música e os meninos aqui do bairro… Por sinal, temos hoje uma celebridade, posso dizer aqui do bairro, que é Virgínia Rodrigues, que é uma das cantoras que é conhecida, muito conhecida através de Caetano Veloso, Gilberto Gil, que resgatou ela aqui do bairro. Tem também outros músicos profissionais, que hoje trabalha com Ricardo Chaves e que trabalhou comigo. São vários, aqui na época de banda… Então eu tive uma infância muito boa. A gente começou com os meninos aqui fazendo voz e violão, barzinho, pagode, essa coisa toda, onde o músico começa mesmo. Deu certo, hoje eu venho fazendo meu trabalho solo. E todo mundo continua, hoje são músicos. Tem músicos daqui da área mesmo, que tá em São Paulo, tá no Rio. Quando a gente se vê, a gente conversa muito sobre o passado. Foi uma infância boa.

 

Bairro

Sete de Abril é um bairro que é mal visto, como muitos bairros, porque é periferia, e antigamente era um bairro muito violento. Hoje, não, hoje já falam muito que morar em Sete de Abril é melhor do que morar em vários bairros do Centro. Um bairro que hoje tem uma segurança legal. Na área musical, o pessoal também tá dando oportunidade. O pessoal de fora mesmo, como os Camaradas, que tem gente daqui de Sete de Abril, Nova Brasília. Os meninos começaram praticamente aqui no bairro. É um bairro que tem muitos músicos também. E eu posso dizer que Sete de Abril hoje tá bem melhor do que o que era antes. Bem melhor, mesmo.

Pra mim, mudar daqui hoje é um pouco complicado. Porque a situação financeira, hoje, pra você se dirigir a um local melhor, o custo é mais… Tudo é mais. Então, eu acho que todo mundo pensa dessa forma: sempre querer ir pra um lugar melhor. Porque nascer e se criar e viver uma vida toda num lugar só, eu acho que não é por aí. Eu acho que você viver, viver pouco, mas viver bem, talvez seja melhor do que você viver muito e viver mal. Então, viver aqui no bairro… É um bairro muito humilde. Seria bom a gente poder encontrar situação financeira pra que a gente pudesse ir pra um lugar melhor. Mas, pra falar a verdade, eu não tenho muito que reclamar diante dos outros bairros de periferia, do bairro que eu moro não. Sete de Abril, de certa forma, tá melhorando bastante.

 

Fatos marcantes

Existe, sim, fatos marcantes aqui, na época de Gilberto Gil, o antigo “Boca de Brasa”. Aqui no bairro, eles vinham com um palco puxado por um Chevetinho e tal. Aí, chegava no fim de linha, armava aquele jogo de luz e convidava os artistas do bairro. Convidava os artistas do bairro e aí eu me apresentei também, na época, e fui escolhido o terceiro melhor artista do bairro. Por sinal, o primeiro melhor artista do bairro hoje é Ivanzinho, que é percussionista de Ricardo Chaves. O segundo colocado foi Virgínia Rodrigues, que é essa menina que hoje tem uma musicalidade contratada por Caetano Veloso. E o terceiro foi eu. Fui contratado naquela época, e foi muito marcante. A gente foi tocar ali no Relógio de São Pedro, aí eu fui recebido por Caetano Veloso, Gilberto Gil, subi no palco. Aquilo ali me marcou muito, eu não esqueço nunca, aquela parte foi muito marcante. Isso tem mais de 10 anos, o antigo “Boca de Brasa”. Muito bom, marcante mesmo. Eu conheci Tonho Matéria naquela época, Gilberto Gil, Caetano. Fiquei de frente com Milton Nascimento. Aquilo ali me marcou muito.

Os moradores famosos aqui, como eu já citei, além desse trabalho que vocês tão vendo aqui, que é Van Costa, que é o meu trabalho do arrocha, tenho outros colegas que também trabalham com música. Tecladista, que é Ivo Alfa, Jair Pinto, Roque do Arrocha. Por sinal, aqui na capa do meu CD, eu venho divulgando também Cristina Rivel, que tem um CD também. Tem a menina que é Adriana Reis, que são dois grupos que trabalham assim em show. Quando eu tô tocando, eles vão também pra divulgar o trabalho deles. Além de Pito, que trabalha com a Mambolada, é um colega que é percussionista, tocou comigo também, além de Ivan. Até no making-off do meu CD, eu faço uma entrevista e falo muito deles também, porque no bairro tem muitos músicos.

 

Igreja

Eu fiz aqui o catecismo, na Igreja Católica, São José. Por sinal, a gente tá bem em frente a ela, onde eu fiz a minha formação na catequese, primeira comunhão, e foi onde tudo começou. Começou com violão ali, tocando com o grupo de jovens na igreja e, da igreja, foi que a gente acabou montando um grupo, indo pra rua tocar. Tocando em barzinho, tocando em palco armado onde tinha show. Por sinal até, na época, o pessoal da igreja ficou um pouco receoso com a gente, porque a gente tocava na igreja e, de repente, a gente pegou o grupo e saiu e começou a tocar pela rua. Mas a música leva a esses caminhos, né? E essa é uma história que hoje a gente tem como contar, assim, de coisas que são marcadas mesmo.

A religião é bem proveitosa aqui no bairro. O pessoal é muito assíduo mesmo, gosta muito. Hoje, a gente tá fazendo aqui uma entrevista no dia de Santa Bárbara. Tá a maior festa lá. Eu sei que hoje tem muita gente da Igreja Católica que tá lá participando dessa festa e, mais tarde, vai tá comentando, com certeza. A gente, que é músico, até espera que quando tiver essas festas assim, os músicos também possam ser aproveitados, ser chamados, e ir lá trabalhar também. Mas é bem gratificante a igreja no nosso bairro, bem gratificante mesmo.

 

Manifestações culturais e esportivas

Aqui é carente, nessa área. Eu sinto que é carente nessa parte de teatro. A musicalidade até que é mais pra cima um pouco. Mas, essa outra parte, eu acho que fica a desejar, porque as pessoas parecem que não tomam uma direção, assim, em termos de sociedade, associação de bairro, né?Temos duas associação, mas, porém, é como se não existisse, porque não existe um presidente, não temos um vereador. É um bairro populoso Sete de Abril, essa área aqui deveria já ter elegido um vereador. Nós não temos. Não temos um chefe de equipe, assim, de uma sede comunitária, não tem. Então, fica um pouco difícil. E quando merece, né? Que é um bairro populoso, tem uma capacidade de moradores que tem condições de eleger, sim, um vereador.

Era pra ter uma sede do Conselho, com uma equipe formada, pra formar eventos, trazer o teatro, trazer as pessoas que trabalham com a arte pra dentro, pra mostrar o jovem, o pessoal que tá começando hoje, que existe esse lado artístico, né? E que eu sei que, lá na frente, pra aqueles que estudam mesmo, correm atrás e conseguem, tem retorno sim. Sete de Abril tá precisando disso aí. Rádio comunitária tem no bairro, mas é uma coisa muito pouco divulgada e deveria ter um jornal, pra que pudesse ser divulgado mais as coisas que existe. Pra gente poder buscar recurso também com as pessoas de competência. Temos pessoas querendo formar uma equipe, um grupo. Tão querendo formar uma equipe pra agora se eleger pra ir pra sede, porque tudo tem que começar por uma associação. Eu acredito que seja por aí. E, na rua, no meio da rua, as coisas não vão andar muito bem.

Por sinal, no final de semana, teve um campeonato de time aqui na Mangueira, aqui no Largo, mas não tem uma direção. Teve uma faixa com o apoio de uma vereadora, mas o pessoal não tem uma localidade onde se reunir, aonde se formar um grupo, se fortalecer. Ainda não tem, mas tá precisando disso, de um grupo, pra que vá pra uma sede da associação, tenha um diretor, um vice, uma direção, pra que esses eventos venham a acontecer. Mas tem muita gente com essa vontade. Até pra mim mesmo, que sou músico, eles vêm querer formar comigo um grupo, porque sabem que eu tenho equipamento de som, que eu tenho teclado. Quando eles vêem meu show, eles vão, eles vêem, e querem se organizar comigo. Mas só que, não é do dia pra noite, que a gente vai formar uma equipe assim… Precisa se reunir, tomar conta de uma frente, de uma associação de bairro, pra poder dar um andamento nessas coisas.

 

Convívio

É uma vizinhança antiga, boa, mas um pouco também conturbada, porque, eu, como músico também, já fui colocado assim, como aquela pessoa que é legal no bairro pra uns, mas pra outros… O pessoal se incomoda por causa do som. A gente coloca o som na rua, a gente precisa trabalhar, e o pessoal aí denuncia à Sucom. Já chegou a Sucom com a polícia, pra desarmar meu som todo, ter que parar o trabalho. Mas vizinho, pessoas vizinhas minha mesmo, e eu já fiquei sabendo. Fala comigo, anda comigo, tudo, mas já ligou contra mim por causa da poluição sonora. A gente sabe que tem, é uma faca de dois gumes, tem os dois lados: tanto a gente agrada a uns e a outros, não.

Como pai, eu me sinto muito bem. Quando eu estou tocando, que meu filho vai olhar, meus sobrinhos, o pessoal que é muito coligado com a família vai. E, depois do show, fica comentando: “Pô, seu pai, rapaz”. “Ah, você é pai de tal pessoa, né? Pô, você é pai de Bruno, eu vi seu CD, tem lá em casa, ele levou. Pô, você é o ‘Talismã do Arrocha’”. Isso é muito gratificante pra gente, dá uma força pra que a gente continue, pra que a gente não pare, porque é bonito, é gostoso; muito bom! Pra mim como pai. Eu até espero que meu filho também em breve, ele venha também levar essa cultura mais longe do que o pai hoje tá fazendo, porque é muito gratificante.

 

Infra-estrutura

Policiamento, aqui no bairro, a segurança em si, tá bem melhor do que antes. Eu acho que tem dado mais conta hoje do que antigamente. A violência tem diminuído. A gente vê, quando a gente tá trabalhando, tocando, que já temos segurança formada no bairro. Mesmo sem ser policiais, mas aquele pessoal que trabalha com apito, apitando tarde da noite, fazendo uma ronda no bairro pra cima e pra baixo. Então, eu acredito que a segurança tá muito boa mesmo. Falta um pouco do governo mais presente, com a área de pavimentação, urbanização. Sete de Abril mesmo precisa de uma área de lazer, não tem um palco estrutural assim, numa área. Eu acho que todo bairro deveria ter, um final de linha que tivesse uma área diretamente pra show, uma sede, uma área ampla pra que pudesse os músicos no final de semana vir, mostrar seu trabalho. Tá faltando isso, mas eu acho que breve eles devem tá olhando por esse lado, porque a música vem crescendo muito. Mas dá pra ir levando, dá pra acreditar que tenha uma melhora.

 

Recado

A gente sempre tem alguma coisa pra dizer. O recado é que as autoridades enxerguem mais o lado do músico amador, as pessoas que são humildes, que sabem que não têm condições mesmo de estar hoje numa gravadora pra mostrar um trabalho, que eles pudessem abrir a porta. Porque as grandes casas de show, a gente vê muito dizer por aí que eles se ajuntou muito com o governo, com esse órgão que é a Sucom, pra destruir os barzinhos dos bairros, pra que os músicos amadores não se apresentem no bairros, pra que o pessoal, o público vá se direcionar pras casas de shows grandes. Então, eles perseguem os pequenos, que somos nós, a gente não pode trabalhar no bairro, pra que o público se dirija às grandes casas. Então, eu acho que o governo deveria olhar esse lado aí, olhar mais também pelos músicos pequenos e nos bairros abrir mais espaço pra que os músicos pequenos pudessem trabalhar. Essa seria uma boa mensagem pra que eles acordassem. Tem muita gente de bem trabalhando com a música, mas não tá podendo andar, porque o próprio governo talvez esteja atrapalhando.

Entrevista realizada em 04 de dezembro de 2007.

 

 

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6 Comments

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  1. Estou simplismente agradecida , por hoje entender mais sobre a história do bairro onde nasci e fui criada, hoje com 25 anos e um filho de 7 anos, que esta acompanhando tantas transformações que vem acontecendo no local, quando eu tinha criança lembro que tinham poucas casas no loteamento, hoje as casas já tem até 3º andar.

    • Obrigado pela visita.
      Sete de Abril é um bairro que vem a cada dia buscando se transformar em um bairro multe funcional. Depois de Pau da Lima que o que se procura acha Sete de Abril já se igualou há muito tempo, Temos varias lans houses espalhadas pelo bairro inteiro. Os mercados do bairro não devem nada aos demais temos tratamento melhor que no Extra, Bom Preço, Mix, Todo dia. Pois nos mercados de Irmãos Matos, União, Novo lar e outros do bairro, você compra e suas compras são entregues em casa, eles te levam na sua casa. Quanto os que já citei anteriormente só querem o seu dinheiro e não estão nem ai para você. Sete de Abril funciona de domingo a domingo, a mercearia do Dinho quase não fecha, os mares ficam funcionando até altas horas, panificadoras abrem cedo e temos também varais farmácias que podem nos ser útil em caso de emergência. A nossa companhia da policia 50º CIPM é atuante e da certo ar de confiança ao bairro. O posto de saúde mesmo capenga funciona e presta alguns serviços essenciais ao povo desse maravilhoso bairro. Contamos com duas grandes escolas publicas o Eraldo Tinoco e o Afrânio Peixoto. Os particulares têm uns montes espalhadas tais como Recanto da Emília Rosa vermelha e Vovó Honorato e outras tantas. Ainda temos o Instituto São Geraldo que faz do Bairro um local de acolhimento, pois o mesmo tem vários anos no bairro onde muitos meninos que ali passaram se tornaram homens de bem um grande exemplo é Fernando o motorista do supermercado União. Que todo mudo conhece e gosta. Para terminar e fechar com chave de ouro lembro-te que o bairro vai ficar mais conhecido com a construção dos prédios da entrada os Jardins dos girassóis.
      Aproveito para mandar um abraço para os meus amigos: Dinho, Itaparica, Sabá, Hilton, Celestino, Brito, Armador, Irailsom, Jorge da Barraca, Carlos da Barraca, Clécio, Val do bar, Gaúcho.
      Um abraço de Duda da Bahia.

  2. Há uma personalidade que não pode ser esquecida, que Sr. Epaminondas ” BIGODE” da quadra “A”, por ser um morador muito antigo e leva a sua fama por ter unado um bigode de muito destaque e se enfeita com muitas correntes, anéis e pingentes enormes!

    • Patricia. Feliz Ano Novo com muita paz em 2013.

      Realmente Epaminondas é mesmo uma figura. O conheço muito bem ele já me deu muito Trabalho quando trabalhava no posto de saúde. Sempre criava problemas em busca de seus direitos. Já tive com ele em vários encontros de autoridades para buscar melhorias para o Bairro de Sete de Abril. Tais como: Trasportes, Saúde e educação. Até no Mosaico Baiano Epaminondas já deu entrevista.
      Também tem os meus amigos e parceiros: Itaparica, Celestino, Dinho da Mercearia, Osvaldo Sena, Val do Bar, Armador, Hilton o pai de Biriti que morreu. Cléber do Mat de construção, Joaquim, Mamédio do açougue…. É muita gente de Sete de Abril que poderia ficar a noite toda falando….rsrsrsrsrs….. Adorei o seu comentário e sempre que poder comente.

      Atenciosamente, Duda da Bahia / Carlos Bomfim Conceição
      http://www.facebook.com/bomfimdabahia

  3. gostei de saber mais do meu bairro que eu amo,conheço osvaldo senna desde que cheguei em sete de abril,sempre votei nele, pois acredito no seu trabalho.integro e de personalidade forte,agradeço a ele pelas benfeitorias no bairro,coisa que só uma pessoa que ama o lugar onde vive faria, e ele fez, parabéns osvaldo.

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